Apollo troca junk bonds por financiamento de aeronaves na EasyJet

Gestora americana deve estruturar dívida de £3,5 bilhões com garantia de aviões em vez de títulos de alto rendimento

Por Marcos Guimarães6 out 2026
Apollo troca junk bonds por financiamento de aeronaves na EasyJet

O que aconteceu

A Apollo Global Management deve recorrer a financiamento lastreado em aeronaves, e não a títulos de alto rendimento, para montar o pacote de £3,5 bilhões que banca a compra da EasyJet Plc. A Bloomberg publicou a informação em 6 de outubro de 2026.

O material não detalha valor de cupom, prazos, rating esperado das tranches nem os bancos que assessoram a operação. Também não há indicação de quando a estrutura será precificada. O que está posto é a escolha do instrumento: os aviões da companhia aérea entram como garantia, no lugar de junk bonds.

Procuradas, as empresas não tiveram posicionamento citado na reportagem.

Contexto

Em compras alavancadas, o roteiro clássico é emitir dívida no mercado de alto rendimento. O comprador capta com investidores de crédito, paga juros mais altos e usa o fluxo de caixa da empresa adquirida para honrar os papéis. É um caminho rápido e conhecido, mas caro quando a taxa básica está elevada e o apetite por risco, seletivo.

O financiamento de aeronaves funciona por outra lógica. Estruturas do setor aéreo agrupam contratos de arrendamento e financiamentos de aviões em títulos cujo colateral é o próprio ativo. Como a aeronave tem valor de revenda e gera receita previsível, as tranches costumam receber avaliações de risco melhores do que a do emissor e, com isso, juros menores. O pacote da EasyJet é denominado em libras.

A EasyJet é uma companhia aérea de baixo custo. A Apollo Global Management é uma gestora americana com atuação em private equity, crédito e ativos reais, e vinha ampliando espaço em aviação por meio de veículos de crédito e de arrendamento. A aquisição da EasyJet colocou a gestora no centro de uma operação de grande porte, que agora busca financiamento.

Por que importa

A decisão muda quem carrega o risco. Ao emitir junk bonds, a Apollo comprometeria o caixa da EasyJet com juros altos e ficaria exposta à volatilidade do mercado de crédito. Ao usar os aviões como garantia, ela separa o risco da companhia do risco do ativo e tende a captar mais barato.

Para a EasyJet, a consequência é direta: parte de sua frota vira colateral de credores. Em recuperação judicial, esses ativos teriam prioridade. Para o mercado de crédito, é menos uma emissão de alto rendimento na fila, num momento em que investidores acompanham de perto o volume de papel de risco ligado a aquisições.

Para gestoras que competem com a Apollo em aviação, a operação funciona como referência de precificação. Se a estrutura sair com custo abaixo do que a emissão de títulos ofereceria, o caminho tende a ser copiado.

Impacto

A curto prazo, o efeito é a redução da oferta de dívida junk no setor aéreo e o aumento de estruturas com garantia de frota. Companhias aéreas com aviões próprios ganham uma fonte alternativa de funding, menos dependente do humor do mercado de títulos.

A médio prazo, a operação reforça duas tendências. A primeira é o avanço do crédito privado sobre operações que antes iam para o mercado público de bonds. A segunda é o uso de ativos operacionais, aviões no caso, como lastro de dívida em aquisições.

O risco está no outro lado. Se o setor aéreo enfrentar queda de demanda ou desvalorização de aeronaves, o colateral perde força e os credores ficam mais expostos do que o previsto na originação.

O que muda

A estrutura de capital da EasyJet sob controle da Apollo passa a depender menos de ratings corporativos e mais do desempenho dos ativos que ela opera. É um desenho diferente do que se viu em aquisições recentes de companhias aéreas, nas quais a dívida de alto rendimento foi o instrumento dominante.

A mudança também afeta o cálculo de quem avalia a gestora. Operações com colateral tendem a exigir menos capital próprio e permitem alavancagem maior, o que altera o retorno esperado da aquisição.

O que vem agora

Os próximos passos são a definição da estrutura final do pacote de £3,5 bilhões e a precificação das tranches. A Bloomberg não informa prazos nem se a escolha pelo financiamento de aeronaves está fechada ou ainda em negociação.

O mercado deve observar dois pontos: o custo final da dívida em relação ao que uma emissão de alto rendimento pagaria, e quais ativos da EasyJet entram como garantia. Esses dois números indicam se o modelo será replicado em outras aquisições do setor.

Fontes

Bloomberg, 6 de outubro de 2026: https://www.bloomberg.com/news/articles/2026-10-06/apollo-set-to-favor-aircraft-funding-over-junk-bonds-for-easyjet